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O teu filho não é um frasco.

quarta-feira, agosto 10, 2016
Temos a mania de rotular tudo. Esta é a verdade. 
Rotulamos a vizinha, a amiga da amiga, a que vem na revista, aquele que largou a mulher, a mulher que foi largada, a por quem foi largada. Rotulamos os nossos e os outros. Quem conhecemos, quem desconhecemos. Rotulamos pela frente e pelas costas. Às claras e às escuras. Rotulamos certo e errado. Injustamente e vá, também às vezes justamente. Mas quando chega a crianças temos de travar este hábito e pensar verdadeiramente no caso.
Isto aconteceu-me quando um dia deixei de dizer que o meu filho era uma peste (e até o dizia até de forma orgulhosa).
Em primeiro lugar, as crianças não são ainda. As crianças podem até ser num momento, mas não o são por inteiro. As crianças estão à procura do que são. 
E depois porque o rótulo se não for positivo, não deve existir. E mesmo os positivos há que ter cuidado porque os podem dotar de uma dose extra de perfeição e se nalgum momento não o forem vão ficar tristes e frustrados com eles próprios e ganhar uma sensação de falhanço. Podemos sempre elogiar um feito. Não um feitio.
Tomei consciência disto, e tomo ainda todos os dias, e agora fico logo alerta quando ouço algumas frases. 
- O meu filho é preguiçoso, a minha filha é insegura, ele não sabe fazer nada, é ciumento, invejoso, etc, etc, etc.
É que mesmo que o seu filho não seja tudo isto... vai passar a ser.
Deixemos de dizer que ela é tímida, que ele é fera, que são insuportáveis, envergonhados, desarrumados, pachorrentos, lentos e outras beliscadelas no espírito dos nossos filhos.
As crianças não têm ainda a sua personalidade formada por completo. E são esponjas. Tudo o que lhe disser agora ele vai tomar como seu. Ele, que ainda não se conhece bem, vai definir-se pelo que ouve de si. Se alguém diz que ele é mau então deve ser mesmo e vai agir como tal. Ele vai acreditar que é mau porque a mãe diz. 
Troque elogios e rótulos ao modo de ser do seu filho por tentativa de cooperação. 
Se ele disse uma mentira, não significa que ele seja mentiroso. Mas pode aproveitar para dizer que não é certo mentir, e que você adora que digam a verdade. Ser teimoso por exemplo é uma característica maravilhosa no futuro. Vai lutar pelo que acredita. Isso não é ótimo?!
As crianças são muitas vezes criticadas por comportamentos que, mais tarde, serão super apreciados, mas por serem pequenos são logo conotados como negativos, ou falta de educação, ou de uma palmada na hora certa.  E porque é que as crianças são obrigadas a ser preto ou branco, quando os adultos vivem tantas vezes no cinzento??
Pode tentar modificar a ação, mas nunca lhe digam que ele é, porque ele ainda está só a tentar ser.
[Estas coisas que aprendi e que tento trazer para a minha vida estão todas aqui.]


8 comentários:

  1. Rita sou mãe de um filho de 1 ano, e chamo-o de terrorista (com orgulho também), e muitas vezes digo à frente das pessoas e dele que ele é uma peste, e faz birras e tal.... Adorei ler este texto porque me abriu um bocado os olhos. Concordo inteiramente consigo, ainda que não o faça - mas vou começar a tentar.
    Lembro-me de ser criança e dizerem que eu era várias coisas, sentia-me injustiçada umas vezes (quando era negativo) e outras vezes sentia-me frustrada (quando era positivo) porque sentia que não era assim tão má mas também sentia que não era assim tão boa. Mais vale mesmo focarmo-nos nos actos. Vou mesmo tentar.
    Muito obrigada por este abrir de pestana. :)

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  2. Revejo-me muito nas suas palavras Rita. Obrigada! MB

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  3. Rita, porque não abre uma escola? Era assim que eu queria criar e entregar os meus filhos. Falta muita gente com este conhecimento no nosso país. Mesmo estudando anos não vejo ninguém aplicar isto na educação das nossas crianças. Pense nisso. Adorava.

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  4. Apesar de não apelidar verbalmente a minha filha,dentro da minha cabeça apelido-a e julgo que,mesmo assim, ha uma projecçao da munha parte. Neste momento,apesar do meu "problema" ser a com as horas de refeição ,temos de aceitar os nossos filhos como eles são. Balizando-os para que tomem o melhor rumo.Beijinhos

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  5. Este artigo fala de coisas essenciais mas esquece o busílis da questão. O sistema nacional de educação. Aquele q rotula a criança através de avaliações sobre conteúdos que alguém decidiu que eles deveriam saber. Não esqueço o anterior ministro da educação que definiu que a meio do 1 ano todas as crianças deveriam articular, através da leitura, 55 palavras por minuto com boa entoação e articulação. Isto significa o quê? Que se respeita o percurso de cada um? Isto é só um exemplo. Quando derem as crianças a responsabilidade pela sua educação elas desenvolverão as suas capacidades inatas de aprendizagem. O inverso aniquila por completo a criatividade. A curiosidade pelo conhecimento. O desenvolvimento auto didata pela busca do conhecimento. No fundo este modelo educativo, do séc XIX, promove a obediência hierárquica, destrói a opinião crítica e a auto estima.

    O que queres ser quando fores grande? Então é que tal o que queres ser agora! Vivemos em função de uma mentira, estuda muito para teres um bom emprego! O que significa ter um bom emprego? Trabalhar a vida toda? Será que temos o direito de impor isto as nossas crianças? Será que este modelo nos tem trazido felicidade? Duvido! Somos uns seguidores das doutrinas de outros, sem capacidade de avaliar o que é melhor para nós!

    Façamos nós o nosso sistema, deixemos de por o nosso futuro nas mãos de outros! Isto sim é lutar por nós. O resto é mais do mesmo

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  6. Tenho o livro da sua irmã e ela tem um texto muito idêntico. É muito giro seguir os vossos blogs e ver como a pesar de muito diferentes têm coisas parecidas.
    O seu sigo de início e adoro e identifico-me a mil%. O da sua irmã tambem é muito divertido.
    Parabéns e continue a escrever coisas que nos fazem tanão sentido.

    Maria Beatriz

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  7. Maravilhoso, acho que já se esgotaram palavras, capazes de corresponder o meu agrado a cada leitura❤

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  8. Querida Rita, esta dica aprendi no segundo Socorro! ;) Obrigada por relembrar. Ê muito fácil cairmos nos mesmos erros.
    Parabéns pela forma como escreve e como mantém este espaço sem se vender às marcas, à futilidade e ao vazio de conteúdo por dá cá aquela palha como me parece que agora acontece a todos os blogs.
    Vir aqui é uma lufada de ar fresco.
    Obrigada por isso, pelos livros e pela forma como nos ajuda a sermos melhores.
    Beijinhos desta admiradora nada secreta
    Filipa Pereira

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