O que eu ouço. [e o meu filho também]

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Não, senhor*!
O meu filho não é hiperativo. É sim um miúdo super ativo, super feliz e cheio de energia. É difícil estar sossegado, parado, concentrado, sim. Mas não é hiperativo.
Seria muito mais fácil tê-lo sentado, amorfo, numa cadeira a fitar o vazio. Seria mais tranquilo para mim tê-lo quieto a ouvir música clássica a olhar o firmamento, mas ele gosta mesmo é de trepar, rebolar, saltar, correr. Era menos embaraçoso para mim se ele acatasse tudo. Mas não. Ele é teimoso e determinado e, muitas vezes, respondão. [Não é isso que elogia no seu filho de 30 anos?!] Ele chora, ele atira-se para o chão, faz birras, fala alto, grita, ri à gargalhada, rebola, é impaciente, é energético, destemido.
Sim era muito mais relaxante para mim tê-lo quieto numa cadeira a contemplar o universo, mas ele vê o mundo às cores e naquele assento não cabem todos os desafios, as aventuras e a magia que ele vê lá fora.
Eu percebo. O senhor já não as vê. Essas maravilhas da nossa vivência, foram-se há muitos anos quando aceitou crescer. Não faz mal. Mas, por favor, peço-lhe que não estrague o mundo do meu filho.
Porque lhe foi dizer que ele é mau comportado? Viu a cara dele de espanto quando ouviu isso? (Viu a minha tristeza porque foi tão injusto com ele?] 
Quando o senhor está numa sala – ora imagine por exemplo 3 horinhas na segurança social – não lhe apetece sair dali?!
Porque foi magoar o meu filho e dizer uma coisa que ele não sente que é?! Que ele não sente que fez? Que ele não é. 
O senhor não conhece o meu filho. O senhor não vê como ele me abraça todas as manhãs e me diz que o seu mundo é perfeito. Não vê o amigo que ele é na escola, o meigo que é para todos, o criativo, o desafiante, o alegre, o corajoso. Não vê como os olhos brilham quando está feliz, nem a bondade com que enfrenta a vida. O senhor nunca recebeu aquele xi-coração apertado que torna o mundo o melhor lugar para se estar.
Porque lhe disse que eu não ia gostar mais dele se ele não se portasse bem?! Senhor, o amor pelo meu filho não pode nunca estar em causa na sua cabeça. Ele não se medeia por comportamentos, nem por se mexer menos ou mais. 
Mas o senhor, que não o conhece, conseguiu pô-lo triste. E tenho pena porque triste vive o senhor que não conseguiu sentir, nesta pequena sala sem espaço para sonhos, o enorme exemplo dele.

*Nenhum senhor em especial e a tantos por aí.

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