Onde acabam os pais e começam os filhos.

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As crianças não se devem sacrificar para que eu possa ter a vida que eu quero. Mas eu sim, devo fazer sacrifícios para que os meus filhos possam ter a vida que merecem.
Esta é a minha maior viagem na parentalidade. 
Até onde vai a minha autoridade de forma a não atrofiar a sua personalidade? Até onde posso impôr a minha vontade? A forma de como quero viver a minha vida pode sufocar os meus filhos? Até onde vão os meus quereres e onde começa a liberdade deles?
E se eu quiser viver isolada do mundo tenho o direito de os isolar a eles?
E se eu tiver medo, tenho o direito de os assustar?
Onde acabam os pais e começam os filhos é o grande desafio da roda viva dos tempos de hoje. Das escolhas, das vontades, das ideias que temos para nós próprios, das ideias dos outros, das correntes…
Não é no consumo, nem nos presentes, nem nos quantos programas e atividades onde possam estar inscritos. Nem nas coisas, nem nos caprichos, nem nas imitações, que isso, às vezes ou quase sempre, nem traz nada de assim tão bom. É o bilhete da vida que lhes pomos na mão para os ajudamos a desenhar o seu percurso.

Será melhor fechá-los ou dotá-los de armas tão positivas que os ensinem a ultrapassar barreiras?
Posso dar-lhes o meu tempo e isso é ouro, mas não esquecer que no pódio sobem também a prata e o bronze.

Os miúdos precisam, a meu ver e por muito que nos custe aceitar, de mais do que nós. Mais do que a bolha.
Eles precisam de amigos, de mundo, de terra, de interagir. Precisam de ir lá para fora aprender, à sua dimensão, como funciona o mundo. E se esse mundo lhes parecer, por nossa causa, assustador, eles vão crescer inseguros de dar os seus passos sozinhos.
Precisam de aprender a estar sem nós, a virarem-se sem estarem na nossa sombra, para que, em doses reduzidas, aprendam a criar autonomia.
[Nós precisamos também de estar sem eles. Para nos conhecermos e nos centrarmos para voltarmos equilibrados e fortes para o desafio que é educar.]
Os nossos filhos precisam muito de nós para o seu presente, mas também para o seu futuro. E nesse “nós”, às vezes, não podemos entrar.
Ficamos quietinhos a espreitar pela fechadura. A vê-los experimentar. E só depois abrimos a porta para consolar.
Eu sou o reflexo do que está lá fora para os meus filhos. Se eu os fechar eles vão achar que é assustador e não vão saber viver. O mundo vai ser para eles o que nós lhes dissermos que é. Pode ser lindo ou horrível. Pode ter um pouco de tudo, mas é bom vivê-lo. Eles vão ser o que nós lhes dissermos que são. Até corajosos. 
Nós precisamos de dizer não, mas também é muito necessário dizermos sim, vai! Não precisas de mim para isso. Vai ver o mundo. 
Por muito que nos custe e nos apeteça não os deixar cair.
Nós precisamos mesmo depois é de lá estar na altura de os ajudar a levantarem-se. As vezes que forem precisas, à hora que for preciso, independentemente do tamanho da queda. 
Só assim seremos o epicentro dos nossos filhos. Com a liberdade de irem e voltarem. E saberem que aqui estamos, a fingir que não temos medo, de braços abertos para os receber desta viagem que é a vida.
Boas festas!

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